quinta-feira, 17 de março de 2011

Entre Aspas -O que realmente é?



Falamos em fazer amor, mas amor se faz? Amor sufoca, amor desatina, amor é martelo, sino retinindo, marcação constante que não dá brecha para contra-ataque, carrapato chupando sangue da pele. Amor-obsessão, amor torneira pingando: até quando, até quando, até quando? Amar é amargo, e promessas amorosas são voláteis. Amor maldito que invade pensamentos, amor que nos carcome paulatinamente, câncer faminto, "ácido de um sim negativo", vida que brota destruindo. Mas amar não é negar o medo, a razão, o tempo? Amar é afirmação nascida de negativas, e não amar é sofrer mais. Você me falava no amor livre e descompromissado dos hippies, mas a liberdade não estava na prisão dos teus braços? Bah, liberdade sem limites acaba em anarquia, niilismo estéril, suruba sem tesão. Amor é como uma fotografia que fixa limites para superá-los. Amor é renúncia a muitas coisas, mas também a maior transcendência que podemos almejar neste mundo. Amar é tornar dois um: mãe com seu filho no ventre. Amor é parto, é dor; e nascemos chorando.




( Alexandre Inagaki )

Entre Aspas-combina comigo




"Eu triste sou calada



Eu brava sou estúpida



Eu lúcida sou chata



Eu gata sou esperta



Eu cega sou vidente



Eu carente sou insana



Eu malandra sou fresca



Eu seca sou vazia



Eu fria sou distante



Eu quente sou oleosa



Eu prosa sou tantas



Eu santa sou gelada



Eu salgada sou crua



Eu pura sou tentada



Eu sentada sou alta



Eu jovem sou donzela



Eu bela sou fútil



Eu útil sou boa



Eu à toa sou tua"



Martha Medeiros





O amor é cego.


Você pode dizer que sim, e quando falamos de amor, muitas coisas vão além da nossa compreensão. Casais desproporcionais tanto fisicamente quanto emocionalmente, estão ai para provar que os opostos se atraem e que o amor pode mesmo ser muito é do cego, ou burro ou sem lógica alguma. A pergunta é: até que ponto usamos esta desculpa para nos afundarmos em relacionamentos desastrosos?

Digo isso por que é muito comum após o fim do namoro, pararmos um tempo para analisarmos em como a coisa toda se deu. Mas comum ainda é nos prostramos como vítimas repetindo o mantra: “Ele não era assim no começo, como pode uma pessoa mudar tanto?”
Será? Será que ele realmente era a perfeição ou seu desespero para mudar seu status no Facebook deixou seus olhos meio preguiçosos?
Eu sei que no começo do namoro é tudo muito bom, tudo muito lindo, como diria Caetano e, ainda estamos jogando o jogo do “eu vou tentar impressionar você” e por algum tempo deixamos nossos comportamentos mais duvidosos debaixo do tapete. Só que é impossível fingir o tempo todo, vez ou outra algo sempre vem à tona e são nas pequenas atitudes que se encontram grandes surpresas. É clichê, mas é pura verdade!
Dar-lhe-ei um exemplo, um dos mais comuns se quer saber, seu ex fala muito mal da ex namorada e você se sente nas nuvens achando que ela já é passado e finge não se dar conta de que ela se faz tão presente na relação quanto você. Só percebe quando ele resolve terminar com você e voltar para os braços dá, até então, megera. Daí você vai desperdiçar meses, lágrimas e ombros amigos tentando entender como pode alguém ser tão dissimulado a ponto de odiar com unhas e dentes a ex e voltar com ela. Mas o ódio foi ele que pintou. Pintou todos os dias com cores gritantes e você foi a única que não viu, aliás, não quis ver. Por que quando a gente superou alguém, ela deixa de ser assunto. Nem ódio, nem amor são exaltados.
O mesmo vale para aquele cara que é um amor com você, mas trata mal a família, o garçom e o cara na fila do cinema. Hora ou outra ele vai te tratar do mesmo jeito e você vai acabar pensando: “Mas eu não entendo, ele era tão fofo!”. A fofura dele era proporcional a sua cegueira.
Então volto a questão: o amor é mesmo cego ou nós é que carregamos vendas em caso de urgência? Se você já sabe a resposta para esta pergunta, o mínimo que pode fazer é encarar o próximo término – não que eu esteja desejando o fim do seu namoro- com pouco mais de maturidade. Assim, quando estiver próxima de uma cegueira momentânea, você pode fazer uso das suas lentes de contato!
Citando Caio Fernando Abreu “Por isso eu acho que a gente se engana, às vezes. Aparece uma pessoa qualquer e então tu vai e inventa uma coisa que na realidade não é”.
E isso se chama desespero, o amor? Ah, o amor é outra coisa!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Texto dos outros



Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre vão embora. Talvez essa seja a pior coisa do mundo. Ele vai embora, sempre, quando eu preciso de quinze minutos de silêncio complementar à minha entrega, odeio o desespero dele por banhos e a sua ansiedade curiosa pelo que vem depois. Que se dane o depois, eu sou agora, ou pelo menos era.

Ele vai embora, sempre, quando o parágrafo passa de três linhas, o pensamento dele ultrapassa meus olhos, o som se perde da minha boca para qualquer outro canto do mundo que não tenha seus ouvidos e ele olha fixamente para qualquer outra coisa que não seja a minha existência. Sempre a mesma cara de tédio e de busca pelo resto que não se repete ou não se prolonga. Ele sempre vai embora quando eu queria que ele se perdesse um pouco, rasgasse a agenda, lançasse o celular no rio, desligasse todos os toques, luzes e sinais de que há todo o resto. Esquecesse do sono, do livro, da planta, das lembranças. Ele sempre vai embora do meu mundo quando eu só queria que ele descansasse um pouco de ser ele o tempo todo, mas ele tem muito medo de não ser ele, talvez porque ele não saiba o que ele é.
Ele sempre vai embora pra descobrir quem ele é, ou para lembrar que ele é o mesmo de sempre que não sabe quem é, ele sempre vai embora antes da gente ser alguma coisa juntos. Vivo com essa sensação de abandono, de falta, de pouco, de metade. Mas nada disso é novidade. Antes dele, teve o outro, o outro que continua indo embora para sempre porque nunca foi embora pra sempre. Eu não sei deixar ninguém partir, eu não sei escolher, excluir, deletar. São as pessoas que resolvem me deixar, melhor assim, adoro não ser responsável por absolutamente nada, odeio o peso que uma despedida eterna causa em mim. Nada é eterno, não quero brincar de Deus.
O outro foi embora a primeira vez porque estava bêbado demais, foi embora a segunda porque ficou tarde, foi embora a terceira porque teve medo de ficar pra sempre, foi embora durante alguns longos anos porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas. Ele me chamou de demanda a última vez que foi embora pra sempre, mas pra sempre pode durar duas horas, dois anos ou duas encarnações. A gente sempre se despede lembrando da música do Chico que diz “o amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio”.
Antes dele teve ainda um outro que sempre ia embora na espera de que existisse algo melhor do que eu, mas não ia definitivamente porque não é todo dia que aparece alguém melhor do que eu. Um dia apareceu, ela até que é bonita e tal, não parece tão confusa e intensa e talvez mediocridade seja tudo de que uma pessoa precise para ser feliz. Mas a última vez que ele foi embora, antes me deu um abraço de quem nunca saiu do mesmo lugar. O abraço e o seu olhar de quem nunca sabe direito porque vai embora ficaram pra sempre comigo.
Hoje meu novo amigo foi embora, não pra sempre, mas um segundo pode ser pra sempre se pensarmos grandiosamente, e ele me dá vontade de pensar grandiosamente. Fazia tempo que alguém não ficava tão calado enquanto eu apenas existo, fazia tempo que alguém não ficava tão perdido só porque me encontrou, fazia tempo que eu não me olhava no espelho e sorria, sabendo que sim, sim, sim, sou bonita ora bolas! Sou interessante! Da onde eu tinha tirado o contrário nos últimos meses?
Todo mundo chega na sua vida. Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre chegam. Talvez essa seja a melhor coisa do mundo. Como naquele texto que não lembro, daquela pessoa que não lembro, e sobre o qual você me contou de um jeito que eu nunca mais vou esquecer, no final a gente acaba mesmo numa esquina qualquer, lembrando de alguém que um dia chegou e depois foi embora, perplexo.

Entre Aspas-E tudo mudou...



O rouge virou blush,


O pó-de-arroz virou pó-compacto,

O brilho virou gloss,

O rímel virou máscara incolor;



A Lycra virou stretch,

Anabela virou plataforma;



O corpete virou porta-seios …

Que virou sutiã …

Que virou lib …

Que virou silicone!



A peruca virou aplique … interlace … Megahair … Alongamento!



A escova virou chapinha,

'Problemas de moça' viraram TPM;



Confete virou MM;



A crise de nervos virou estresse,

A chita virou viscose,

A purpurina virou gliter,

A brilhantina virou mousse…



Os halteres viraram bomba,

A ergométrica virou spinning,

A tanga virou fio dental…



. . . E o fio dental virou anti-séptico bucal.



Ninguém mais vê:



Ping-Pong porque virou Bubaloo,

O à-la-carte porque virou self-service,



A tristeza agora é depressão,

O espaguete virou Miojo pronto,

A paquera virou pegação,

A gafieira virou dança de salão,



O que era praça virou shopping,

A areia virou ringue,

A caneta virou teclado,

O LP virou CD,



A fita de vídeo é DVD,

O CD já é MP3,

É um filho onde eram seis,

O álbum de fotos agora é mostrado por e-mail,



O namoro agora é virtual,

A cantada virou torpedo,

E do 'não' não se tem medo,

O break virou street,



O samba, pagode

O carnaval de rua virou Sapucaí,

O folclore brasileiro, halloween

O piano agora é teclado, também…



O forró de sanfona ficou eletrônico,

Fortificante não é mais Biotônico,

Polícia e ladrão virou counter strike,



Folhetins são novelas de TV,

Fauna e flora a desaparecer,

Lobato virou Paulo Coelho,

Caetano virou um pentelho,



Baby se converteu,

RPM desapareceu,

Elis ressuscitou em Maria Rita

Gal virou fênix,

Raul e Renato,

Cássia e Cazuza,

Lennon e Elvis,



Todos anjos

Agora só tocam lira…



A AIDS virou gripe,

A bala antes encontrada agora é perdida,

A violência está maldita!



A maconha é calmante,

O professor é agora o facilitador,

As lições já não importam mais,

A guerra superou a paz,

E a sociedade ficou incapaz…

… De tudo.

. . . Inclusive de notar essas diferenças.


Quer saber quem escreveu esse texto?
Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre, 26 de setembro de 1936) é um escritor brasileiro. Mais conhecido por suas crônicas e textos de humor, mais precisamente de sátiras de costumes, publicados diariamente em vários jornais brasileiros, Verissimo é também cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e romancista bissexto. Já foi publicitário e copy desk de jornal. É ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns conjuntos. Com mais de 60 títulos publicados, é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos. É filho do também escritor Erico Verissimo.

Entre Aspas-Explosão




Não tenho nada a ver com explosões”, diz um verso de Sylvia Plath. Eu li como se tivesse sido escrito por mim. Também não faço muito barulho, ainda que seja no silêncio que nos arrebentamos.

Tampouco tenho a ver com o espaço sideral, com galáxias ou mesmo com estrelas. Preciso estar firmemente pousada sobre algo — ou alguém. Abraços me seguram. E eu me agarro. Tenho medo da falta de gravidade: solta demais me perco, não vôo senão em sonhos.
Não tenho nada a ver com o mato, com o meio da selva, com raízes que brotam do chão e me fazem tropeçar, cair com o rosto sobre folhas e gravetos feito uma fugitiva dos contos de fada, a saia rasgando pelo caminho, a sensação de ser perseguida. Não tenho nada a ver com cipós, troncos, ruídos que não sei de onde vêm e o que me dizem. Não me sinto à vontade onde o sol tem dificuldade de entrar. Prefiro praia, campo aberto, horizonte, espaço pra correr em linha reta. Ou para permanecer sem susto.
Não tenho nada a ver com boate, com o som alto impedindo a voz, com a sensualidade comprada em shopping, com o ajuntamento que é pura distância, as horas mortas desgastando o rosto, a falsa alegria dos ausentes de si mesmos.
Não tenho nada a ver com o que é dos outros, sejam roupas, gostos, opiniões ou irmãos, não me escalo para histórias que não são minhas, não me envolvo com o que não me envolve, não tomo emprestado nem me empresto. Se é caso sério eu me dôo, se é bobagem eu me abstenho, tenho vida própria e suficiente pra lidar, sobra pouco de mim para intromissões no que me é ainda mais estranho do que eu mesma.
Não tenho nada a ver com cenas de comerciais de TV, sou um filme sueco, uma comédia britânica, um erro de adaptação, um personagem que esquece a fala, nada possuo de floral ou carnaval, não aprendi a ser festiva, sou apenas fácil.
Não tenho nada a ver com igrejas, rezas e penitências, são raros os padres com firmeza no tom, é sempre uma fragilidade oral, um pedido de desculpas em nome de todos, frases que só parecem ter vogais, nosso sentimento de culpa recolhido como um dízimo. Nada tenho a ver com não gostar de mim. Me aceito impura, me gosto com pecados, e há muito me perdoei.
Não tenho nada a ver com galáxia, mato, boate, a vida dos outros, os comerciais de TV e igrejas. Meu mundo se resume a palavras que me perfuram, a canções que me comovem, a paixões que já nem lembro, a perguntas sem respostas, a respostas que não me servem, à constante perseguição do que ainda não sei. Meu mundo se resume ao encontro do que é terra e fogo dentro de mim, onde não me enxergo, mas me sinto.
Minto, tenho tudo a ver com explosões.

Quer saber quem escreveu esse texto?
Martha Medeiros (Porto Alegre, 20 de agosto de 1961) é uma jornalista e escritora brasileira. Filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros, é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, tradicional de Porto Alegre, localizado nos arredores do bairro Moinhos de Vento. Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de nove meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e, a partir daí, sua carreira literária deslanchou.

terça-feira, 15 de março de 2011

Soprando desejos.

Conforme o tempo vai passando e vamos crescendo, percebemos o quão mutáveis e efêmeras as coisas são. Diferenciamos as amizades que serão duradouras e chegamos a conclusão, muitas vezes dolorosa, de que quem realmente nos ama guarda um tempo para pensar em nós e quer saber mais sobre nosso dia, sem mais desculpas para lá e para cá.

Entristecemo-nos com quem saiu de nossos corações sem pedir permissão e, talvez chorando, lembramos do quanto desejamos que aquele verão durasse todas as estações da nossa adolescência.
Se este documento fosse um manual de instruções, recomendaria o exercício diário por todos aqueles que já se decepcionaram por excesso de devoção e amor: repita para si todas as manhãs “estou aberto para aprender algo novo hoje”. Não podemos subestimar o valor de um pedaço de informação (mesmo que banal), pois esse, fiel escudeiro, não nos abandonará nos momentos mais inusitados e nos renderá amigos e boas conversas.
Já se essas palavras formassem um mural de avisos, diria duas vezes antes de pensar (como se não houvesse amanhã), para que não se arrependam de nada e não eternizem sentimentos. Afinal, faríamos tudo irrevogavelmente da mesma forma.
Sinto que mesmo sendo meu aniversário, devo em forma de aviso um presente para mim e para todos aqueles que amam: não exija o amor de ninguém. Não há martírio maior do que não ser correspondido embora você faça tudo certo. Sendo assim, poupe sua consciência e passe as noites em claro dedicando sua energia em algo que seja importante o bastante para merecer qualquer sofrimento.
Minhas velinhas estão acesas para que os desejos e sonhos sejam soprados. E que estes nunca se apaguem, bem como nossa juventude.